Odes Melódicas
Coletânea lírica em formato de ópera bufa em parceria com o projeto Gerasom. Poemas compostos sob medida para serem cantados e adornados por melodias acústicas.
Ode sem Fim
Já na primeira vez, foi assim Assimilei os sinais... Tanta leveza que conta a mina Feliz do coração que pulsa leve Trevo da sorte e mapa da mina Faísca do bem, tão rara e breve.
Já na segunda vez, fiquei a fim Afinidades demais... Tudo a seu tempo e sem pressa Cada tema que flui na conversa Troca de ideias e vida pregressa Com a profusão vasta e diversa.
Já na terceira vez, veio a mim Amizade que apraz... Tento expressar sem receio Pura emoção a fluir na sina Truque imagético do anseio Para a ode que não termina.
Ode ao Solitário
Oh! coração dolente e infiel Ambíguo e solitário à beira da via Quando a ordem do mundo é cruel E torna à míngua a esperança que havia Precários alentos embaixo do céu. O sol, sólida, solitude...
Oh! Sombra pálida de olhar triste Seguindo adiante sem rumo e sem meta Quando a dor a que essa alma resiste E toma o semblante em torpor do poeta Acusa-lhe a obra que a gente assiste. O sol, sólida, solidão...
Quem tudo vê sempre indiferente Diante da cena, sequer se manifesta Quando a contenda se resume ao presente E toda angústia extravasa o que resta O sol da frieza arde à sua frente. O sol, sólida, solução.
Ecos de Mim
Ecos de meu coração tão cético Nas brutas batidas desritmadas Embalam o meu peito poético Alvo das balas de amor atiradas.
A música que sempre me anima Beleza que tangencia a perfeição Como o corpo da alma feminina Que se perpetua na imaginação.
Lembranças, memórias, saudade Daquilo que fui e me trouxe aqui Sinais que me delatam a idade Vivas imagens de tudo que já vi.
Sons que ainda permeiam a mente Frases proferidas, letras de canções Gritos de alegria, silêncio eloquente Palavras simulam sentidos e ações.
A melodia de um dia em plenitude Ecoa em mim, poeta sem suporte Só a paixão traduzida na atitude De se viver comovido até a morte.
Ondas Melódicas
Navegai nos acordes da melodia Movido pelo leme das quimeras Sobre mares singulares da utopia Ao singrares a nau rumo a terras Com a face úmida de melancolia.
Evolua contra a onda que impacta Numa turbulência cruel e adversa Que expande a sua sanha abstracta Ao combater a tal hidra perversa Com a quilha que atravessa intacta.
Penetrai as procelas e tempestades Das sereias e dos monstros terríveis Ante a fúria de mitos e potestades Qual presságio de périplos temíveis. A purgar os pecados e iniquidades.
Atracai em fim, sem ilhas oníricas Onde os desejos reais são humanos Sentimentos são as joias mais ricas Além de toda vastidão dos oceanos Em cujos sonhos, a ode é mais lírica.
Ode dos Poetas
O homem é a semente De o(n)de brota o invento Engenho e arte da mente Criando a cada momento O poema futuro.
Esses poetas marginais Como artistas visionários Criam seus mundos magistrais Da força de seus imaginários.
Esses autores viscerais Seres autênticos em sua arte Em meio aos versos geniais Mostram a nossa oculta face.
Vida longa aos que fazem tanto Pela condição humana em nós Para sempre a palavra por encanto E dela a eterna magia da voz.
Esses notáveis menestréis Raros e sensíveis cantadores Mesmo ante algozes cruéis Cantam a vida e sus amores,
Esses profetas do cotidiano Cronistas de emoções baratas Pela veia do artista soberano Brotam metáforas abstratas.
Antares
“Amar um amor casto à distância, ...e alcançar a estrela inatingível” (Miguel de Cervantes)
Antigas escrituras no papiro Orientam os versos seculares Desde o primeiro suspiro... Até os infindos locos estelares
Por todas as sendas e lugares Espraia-se em luz e som a poesia Dançam estrelas, densos quasares Energia vibra em franca estesia
Assim, por mais que seja distante Há de pulsar no íntimo “este lar” Que cada um carrega, habitante Anima nostra ainda por se revelar
Num breve diálogo com Deus Sem sacerdotes e suntuosos altares Ínfimo grão do universo in theus Alma gigante - estrela de Antares.
Alma Nua
Que nada nos distraia Nem o aplauso, nem a vaia Que nada nos iluda A fé insana que não ajuda Que tudo seja pleno Um ser audaz de tom ameno Que tudo seja claro De alma nua, eu me declaro!
Que nada vale tanto Nem o poema e o seu encanto Que nada é divino Lágrima e suor regam o destino Que tudo é passageiro Até a vida, no sopro derradeiro Que tudo também continua Emana a vibração da alma nua.
Diante Do Mar
Diante do mar Colhi as estrelas na areia O sol radionizante no ar De eflúvios nos incendeia
Diante do mar Caymmi se fez um rei Nas cantigas a me embalar Caí e me inspirei
Diante do mar Meu corpo se doura na praia Meus olhos a comparar Espuma e renda de cambraia
Diante do mar Dancei a ciranda de Lia Os pés descalços a preamar Tocando a vida à revelia
Diante do mar Antes que o mal aconteça Serei feliz para amar Com todo bem que eu mereça
Diante do mar No horizonte diviso o infinito Não há quem possa alcançar A amplidão do que eu acredito.
É Do Mundo (Drummondiando)
Se o teu verso gauche vencer o tempo Para durar além da vida O poema sentimental arderá em glória Como a cura a (se) provar A tua assinatura nas paredes da memória... (É do mundo, é du munde, é Drummond.)
Se o eco do teu canto alcançar a dor Pela freima da ferida acesa A palavra engajada há de bradar direta Sem remissão nem redenção A aura da poesia a inundar a vida do poeta. (É do mundo, é du munde, é Drummond.)
O Beijo
De onde nasce o beijo que faz o corpo a(s)cender Daquilo que não vejo quando cego pelo prazer Da minha boca à tua boca há quilômetros de sonhos e desejos...
Bocas que se unem pelo beijo como se fossem provar o amor por inteiro... Da minha boca à tua boca há palavras ainda não ditas de carinho...
Bocas desse mundo que almejo Salivando à míngua no clamor derradeiro... Por fim, agora me despeço com um longo beijo de poeta Daqueles que tanto peço de olhos cerrados e boca aberta.
